Todos os anos surge a mesma dúvida: vou receber dinheiro do IRS ou vou ter de pagar?
À primeira vista, pode parecer impossível saber antes de entregar a declaração. Mas a lógica é bastante mais simples do que parece.
O resultado depende, entre outros fatores, do imposto correspondente aos teus rendimentos, das retenções que já fizeste ao longo do ano e das deduções a que tens direito.
Neste guia vais perceber como saber se vais receber ou pagar IRS em 2026, como funciona o reembolso, porque duas pessoas com o mesmo salário podem obter resultados diferentes e como fazer uma simulação antes de entregar a declaração.
Nota: a declaração entregue em 2026 diz respeito, em regra, aos rendimentos obtidos durante 2025.
Receber IRS não significa que o Estado te está a dar dinheiro
Este é provavelmente o conceito mais importante.
Quando trabalhas por conta de outrem, normalmente uma parte do teu salário é entregue todos os meses ao Estado através da retenção na fonte.
Essa retenção funciona, de forma simplificada, como um adiantamento do IRS.
Quando entregas a declaração anual, é feito o cálculo final.
Se, depois do apuramento, as retenções e pagamentos por conta forem superiores ao imposto efetivamente devido, a diferença pode originar reembolso. A própria Autoridade Tributária explica que as retenções na fonte e os pagamentos por conta conferem direito a reembolso quando são superiores ao imposto devido.
Por isso:
Retiveste mais do que o necessário → podes receber IRS.
Retiveste menos do que o necessário → podes ter IRS a pagar.
Mas há mais fatores envolvidos.
Como é calculado o IRS?
Não basta olhar para o salário bruto anual.
O cálculo pode ser influenciado por elementos como:
- rendimentos obtidos;
- situação familiar;
- número de dependentes;
- retenções na fonte;
- determinadas despesas;
- benefícios fiscais;
- outras fontes de rendimento;
- pagamentos por conta;
- regras fiscais aplicáveis à situação do contribuinte.
É precisamente por isso que duas pessoas com salários semelhantes podem acabar com resultados diferentes.
Exemplo muito simples
Imagina dois trabalhadores.
Pessoa A
Durante o ano foram-lhe retidos:
2.000 €
Depois do cálculo definitivo do IRS, imaginemos que o imposto devido era:
1.600 €
Simplificando:
2.000 € − 1.600 € = 400 €
Neste exemplo, poderia existir um reembolso de 400 €.
Pessoa B
Agora imaginemos outra pessoa que teve apenas:
1.300 € de retenções
mas cujo imposto final apurado fosse:
1.600 €.
Simplificando:
1.600 € − 1.300 € = 300 €
Poderia resultar em aproximadamente 300 € a pagar.
Estes valores são meramente ilustrativos. O cálculo real é consideravelmente mais complexo.
As despesas podem fazer diferença no IRS?
Sim.
Existem várias categorias de deduções à coleta.
Entre elas encontram-se despesas gerais familiares, saúde, educação e formação, determinados encargos relacionados com habitação, lares e IVA suportado em determinados setores. Existem também deduções relacionadas com dependentes, ascendentes e outras situações previstas na legislação.
Estas deduções reduzem, dentro das regras e limites aplicáveis, o montante de imposto.
É por isso que vale a pena acompanhar as despesas registadas no Portal das Finanças.
Onde consultar as despesas dedutíveis?
Grande parte da informação é processada automaticamente pela Autoridade Tributária.
A AT utiliza os dados do e-Fatura e informação comunicada por outras entidades para pré-preencher diversas deduções.
Podes consultar:
Portal das Finanças → IRS → Consultar Despesas para Deduções à Coleta
A AT disponibiliza aí o total das despesas por categoria e o montante considerado para dedução.
E se as despesas estiverem erradas?
Não deves assumir automaticamente que tudo está correto.
Em determinadas situações é possível corrigir informação.
Por exemplo, a Autoridade Tributária explica que despesas de saúde, educação, imóveis e lares podem ser corrigidas através do quadro 6C do Anexo H, declarando as despesas em substituição dos valores comunicados à AT.
Atenção: ao escolher essa opção, é necessário indicar a totalidade das despesas relevantes daquela categoria, e não apenas acrescentar a fatura que falta.
Convém também guardar os respetivos comprovativos.
Como saber antes de entregar se vou receber IRS?
A maneira mais simples é utilizar a simulação disponível durante o preenchimento da declaração no Portal das Finanças.
Depois de preencheres ou confirmares os dados, podes fazer uma simulação antes da entrega.
O próprio formulário eletrónico da AT inclui essa funcionalidade.
No entanto, existe um aviso importante.
A AT refere que a simulação não contempla necessariamente todas as situações declarativas, pelo que o resultado da liquidação definitiva pode ser diferente.
Portanto, encara o valor apresentado como uma estimativa e não como uma promessa de reembolso.
Simular e entregar a declaração de IRS
Porque é que recebi muito IRS no ano passado e este ano quase nada?
Esta situação provoca bastante confusão.
Receber menos reembolso não significa necessariamente que começaste a pagar mais imposto.
Pode simplesmente significar que, durante o ano, as retenções ficaram mais próximas do imposto que realmente tinhas de pagar.
Imagina:
Ano A
Imposto devido: 2.000 €
Retenção durante o ano: 2.700 €
Resultado simplificado:
700 € de reembolso
Ano B
Imposto devido: 2.000 €
Retenção durante o ano: 2.100 €
Resultado simplificado:
100 € de reembolso
Nos dois exemplos, o imposto final é exatamente o mesmo: 2.000 €.
O que mudou foi o montante que tinha sido adiantado através das retenções.
É por isso que não devemos avaliar a carga fiscal apenas pelo tamanho do reembolso.
Posso receber IRS mesmo sem muitas despesas?
Sim.
As despesas e respetivas deduções são apenas uma parte do cálculo.
O resultado também depende das retenções efetuadas e do imposto final apurado.
Da mesma maneira, ter muitas despesas não significa automaticamente receber um grande reembolso.
As deduções têm regras e limites próprios. A AT refere inclusivamente que a soma de várias deduções está sujeita a limites que dependem do rendimento coletável e da composição do agregado familiar.
Ter filhos aumenta o reembolso?
Pode influenciar o cálculo.
Existem deduções relacionadas com dependentes e, além disso, algumas despesas dos dependentes podem ser consideradas nas categorias aplicáveis, como saúde e educação.
Mas não existe uma regra simples do género:
“Um filho = X euros de reembolso.”
O resultado depende do conjunto da situação fiscal do agregado.
Casado: IRS conjunto ou separado?
Os casais podem encontrar diferenças consoante a respetiva situação e opção de tributação.
Por isso, quando a declaração permitir essa escolha, vale a pena simular as alternativas disponíveis antes de entregar.
O objetivo não é adivinhar.
É comparar os resultados apresentados pelo sistema para a situação concreta do agregado.
E quem tem dois empregos?
Aqui convém ter especial atenção.
As retenções efetuadas mensalmente não são o cálculo definitivo do IRS.
Quando existem vários rendimentos, estes são considerados de acordo com as regras aplicáveis na declaração anual.
Por isso, alguém com mais do que uma fonte de rendimento pode encontrar um resultado diferente daquele que esperava simplesmente olhando para as retenções de cada salário isoladamente.
Trabalhadores independentes também podem receber IRS?
Sim.
Mas a situação pode ser mais complexa.
Os rendimentos provenientes de atividades empresariais e profissionais são classificados como Categoria B, enquanto os rendimentos de trabalho por conta de outrem pertencem à Categoria A.
Dependendo da situação, um trabalhador independente pode ter retenções na fonte, pagamentos por conta e outras obrigações.
Por isso, não se deve aplicar automaticamente a um trabalhador independente o mesmo raciocínio usado para alguém que apenas recebe um salário.
IRS Automático: devo confirmar sem verificar?
Não.
O facto de a declaração estar pré-preenchida não significa que devas aceitar tudo sem olhar.
Antes de confirmar, verifica pelo menos:
Rendimentos → Retenções → Agregado familiar → IBAN → Despesas/deduções → Outros elementos relevantes para a tua situação.
Se houver informação incorreta, convém perceber a origem da diferença antes de submeter.
O e-Fatura é realmente importante?
Sim.
É através do e-Fatura que podes consultar e validar muitas das faturas emitidas com o teu NIF.
Algumas ficam com “informação pendente”, sobretudo quando a empresa tem diferentes atividades e a AT não consegue determinar automaticamente a categoria correta da despesa.
Ignorar essas faturas pode significar que determinadas despesas não ficam corretamente classificadas.
Quando é entregue o IRS em 2026?
A declaração Modelo 3 é entregue entre:
1 de abril e 30 de junho de 2026
A entrega é feita eletronicamente.
Para as declarações entregues dentro do prazo, o calendário oficial da AT aponta 31 de agosto de 2026 como prazo para receber o reembolso ou proceder ao pagamento do imposto devido.
Checklist antes de entregar o IRS
Antes de carregares em Entregar, verifica:
- Se os rendimentos estão corretos.
- Se as retenções na fonte estão corretas.
- Se o agregado familiar está correto.
- Se verificaste as deduções.
- Se não existem despesas relevantes em falta.
- Se os dados bancários estão corretos.
- Se tens todos os anexos necessários.
- Se fizeste a simulação.
- Se comparaste as alternativas aplicáveis à tua situação.
- Só depois confirma a entrega.
Cinco minutos de verificação podem evitar bastante trabalho posteriormente.
Perguntas frequentes
Como saber exatamente quanto vou receber de IRS?
Podes utilizar a simulação disponível no Portal das Finanças antes de entregar a declaração. O resultado definitivo só fica determinado através da liquidação da AT.
Se aparecer “valor a reembolsar”, vou receber esse dinheiro?
A simulação é uma boa indicação, mas a própria AT alerta que pode haver diferenças entre a simulação e a liquidação definitiva.
Quanto mais despesas tiver, maior será sempre o reembolso?
Não. Existem percentagens, condições e limites aplicáveis às diferentes deduções.
É melhor receber muito IRS?
Não necessariamente.
Um grande reembolso pode simplesmente significar que adiantaste mais imposto ao Estado durante o ano através das retenções.
Posso corrigir despesas que não aparecem corretamente?
Em determinadas categorias, sim. Saúde, educação, determinados encargos com imóveis e lares podem ser corrigidos no Anexo H nos termos indicados pela AT.
Conclusão
Saber se vais receber ou pagar IRS em 2026 não depende apenas do salário.
O resultado é consequência da relação entre os teus rendimentos, imposto apurado, retenções, deduções e restante situação fiscal.
A forma mais segura de antecipar o resultado é simples:
verificar os dados → confirmar as deduções → preencher a declaração → simular → só depois entregar.
E lembra-te de uma coisa: reembolso de IRS não é dinheiro oferecido pelo Estado. Na generalidade das situações, resulta do acerto entre aquilo que foi adiantado através das retenções e aquilo que efetivamente ficou apurado na liquidação.


