.Poupar 100€ por mês pode parecer difícil quando a renda ou prestação da casa, o supermercado, a eletricidade, os transportes e todas as outras despesas chegam praticamente ao mesmo tempo.

Mas há uma forma mais simples de olhar para o problema.

Em vez de tentar descobrir uma despesa onde cortar 100€, procura cinco, seis ou sete pequenas mudanças que, juntas, permitam chegar a esse valor.

Poupar 100€ por mês representa:

  • 1.200€ num ano
  • 2.400€ em dois anos
  • 6.000€ em cinco anos

E isto sem contar com juros ou qualquer eventual rendimento que o dinheiro possa gerar.

Não significa que todas as pessoas consigam poupar exatamente 100€. Um agregado que paga 800€ de renda não tem a mesma margem de poupança que alguém que vive numa casa já paga.

Por isso, este guia não pretende dizer-te quanto “deverias” conseguir poupar.

O objetivo é muito mais útil: mostrar-te onde procurar dinheiro que pode estar a escapar todos os meses sem te aperceberes.


Primeiro: não comeces por cortar tudo aquilo de que gostas

Quando alguém decide que precisa de poupar, é muito comum começar pelo café, pelo jantar fora ou por outras pequenas despesas.

Nem sempre é o melhor ponto de partida.

Antes de sacrificares pequenas coisas que te dão prazer, verifica se tens:

  • subscrições que já não utilizas;
  • um pacote de telecomunicações demasiado caro;
  • comissões bancárias desnecessárias;
  • desperdício alimentar;
  • compras por impulso;
  • um contrato de energia que nunca voltaste a comparar.

A primeira regra deveria ser:

cortar desperdício antes de cortar qualidade de vida.

Vamos então procurar os teus 100€.


1. Paga-te primeiro

A estratégia tradicional é:

“No final do mês vejo quanto sobra e guardo.”

O problema é que muitas vezes não sobra nada.

Experimenta inverter a ordem.

Assim que recebes o salário, transfere automaticamente uma determinada quantia para uma conta separada.

Não precisa de começar nos 100€.

Transferência mensalTotal ao fim de 12 meses
20€240€
30€360€
50€600€
75€900€
100€1.200€

Começa por um valor suficientemente baixo para não precisares de ir buscar novamente o dinheiro antes do fim do mês.

Se conseguires começar com 30€, já só precisas de encontrar outros 70€ no orçamento.


2. Faz uma auditoria aos últimos 90 dias

Abre a aplicação do banco e consulta os últimos três meses.

Agora procura todas as despesas recorrentes.

Não olhes apenas para compras grandes.

Procura coisas como:

  • 4,99€;
  • 7,99€;
  • 9,99€;
  • 14,99€;
  • pequenas compras frequentes;
  • entregas de comida;
  • aplicações;
  • estacionamento;
  • comissões;
  • subscrições digitais;
  • compras online.

Uma despesa de 9,99€ parece pequena.

Mas repetida durante 12 meses representa aproximadamente 120€ por ano.

A pergunta importante não é:

“Isto é caro?”

É:

“O que estou a receber em troca justifica continuar a pagar todos os meses?”


3. Cancela uma subscrição que quase não usas

Netflix, Disney+, Spotify, armazenamento na cloud, aplicações premium, ginásio, jogos, jornais digitais...

Não estou a sugerir que canceles tudo.

Faz apenas um teste simples.

Pergunta:

Utilizei realmente este serviço nos últimos 30 dias?

Se tens quatro serviços de streaming mas utilizas sobretudo um, podes manter um ou dois e alternar os restantes ao longo do ano.

Exemplo

Cancelamento de uma subscrição:

9,99€ por mês

Poupança aproximada num ano:

120€

E já encontraste praticamente 10% da nossa meta mensal.


4. Revê o pacote de Internet e telemóvel

Há contratos de telecomunicações que permanecem anos sem serem realmente analisados.

Olha para a tua fatura e verifica:

  • quanto pagas;
  • quantos dados móveis tens;
  • quantos efetivamente utilizas;
  • se precisas de televisão;
  • se estás a pagar equipamentos;
  • se existem serviços adicionais;
  • quando termina a fidelização.

A ANACOM recomenda que os consumidores avaliem cuidadosamente contratos com e sem fidelização e tenham em atenção os custos que podem existir no cancelamento antecipado.

Antes de aceitar uma nova proposta, compara sempre o custo total e não apenas o desconto inicial.

Exemplo

Mensalidade atual: 55€

Nova solução adequada às tuas necessidades: 45€

Diferença:

10€ por mês

Num ano:

120€

Os valores são apenas ilustrativos, naturalmente.


5. Compara novamente a eletricidade e o gás

Se não comparas o teu contrato de energia há bastante tempo, vale a pena fazê-lo.

A ERSE disponibiliza gratuitamente um Simulador de Preços de Energia, que reúne as ofertas comerciais disponíveis para clientes domésticos de eletricidade em baixa tensão normal e gás natural em baixa pressão em Portugal continental.

Podes fazer uma simulação com base no consumo e nas características da tua própria fatura.

Compara:

  • preço da energia;
  • potência contratada;
  • termo fixo;
  • descontos;
  • duração dos descontos;
  • serviços adicionais;
  • fidelização ou penalizações previstas no contrato.

A ERSE esclarece também que mudar de comercializador não tem, por si só, um custo associado, embora devas verificar as condições do contrato que tens atualmente.

Não escolhas apenas pela publicidade

Uma oferta com “20% de desconto” não é necessariamente mais barata do que outra com 10%.

O que interessa é o valor final esperado da fatura.


6. Confirma se a potência contratada faz sentido

Esta é uma parte da fatura de eletricidade que muitas pessoas nunca analisaram.

A potência contratada deve ser adequada ao número e tipo de aparelhos elétricos que precisas de utilizar simultaneamente.

A própria ERSE permite simular a potência contratada mais adequada à utilização da casa.

Mas atenção:

não baixes a potência apenas para poupar alguns euros sem verificares primeiro se é suficiente para a tua casa.

Se for demasiado baixa, o quadro elétrico poderá disparar frequentemente quando utilizares vários equipamentos ao mesmo tempo.


7. Define um orçamento mensal para supermercado

Imagina que nos últimos três meses gastaste:

  • março: 330€
  • abril: 365€
  • maio: 355€

A tua média anda à volta dos 350€.

Em vez de dizeres apenas:

“Tenho de gastar menos no supermercado.”

define uma meta.

Por exemplo:

Orçamento do próximo mês: 320€

Tens agora um objetivo concreto:

reduzir cerca de 30€.

Isso é muito mais eficaz do que entrar no supermercado e simplesmente tentar “ter cuidado”.


8. Faz uma lista de compras baseada no que já tens

Antes de ir ao supermercado, abre:

  • frigorífico;
  • congelador;
  • despensa.

Pode parecer demasiado básico, mas evita uma quantidade surpreendente de compras duplicadas.

Encontra primeiro aquilo que já tens e constrói algumas refeições à volta desses alimentos.

Por exemplo, se tens:

  • arroz;
  • massa;
  • ovos;
  • legumes congelados;
  • frango no congelador;

não precisas de planear sete refeições completamente novas.

Planeia quatro ou cinco utilizando parte do que já existe em casa.

Depois compras apenas o que falta.


9. Compara o preço por quilo, litro ou unidade

Não compares apenas o preço da embalagem.

Imagina:

Produto A: 2,40€ por 500 g
Produto B: 3,80€ por 1 kg

À primeira vista, o primeiro parece mais barato.

Mas:

Produto A = 4,80€/kg
Produto B = 3,80€/kg

Neste exemplo, a embalagem mais cara representa um preço por quilo mais baixo.

Isto é especialmente útil em:

  • arroz;
  • massa;
  • cereais;
  • detergentes;
  • café;
  • papel higiénico;
  • produtos de higiene;
  • bebidas;
  • congelados.

Há apenas uma condição:

só compensa comprar mais quantidade se realmente fores utilizar o produto.

Comprar três unidades para aproveitar uma promoção e depois desperdiçar uma não é poupar.


10. Leva almoço de casa mais algumas vezes

Não tens de levar marmita todos os dias.

Basta perceberes quanto custa cada alternativa.

Exemplo

Almoço fora: 10€

Almoço preparado em casa: 4€

Diferença: 6€

Se levares almoço de casa duas vezes por semana:

6€ × 2 refeições × 4 semanas = 48€

Este é apenas um exemplo. O valor real pode ser bastante diferente consoante o restaurante e aquilo que preparas.

Mas mesmo que poupasses apenas metade desse valor, já seriam cerca de 24€ por mês.

Se trabalhas por turnos, preparar várias doses ao mesmo tempo pode ainda ajudar a evitar compras de última hora.


11. Cria um orçamento para cafés e snacks

O café não é necessariamente o inimigo das finanças pessoais.

O problema é não saber quanto gastamos.

Imagina:

Café + snack + bebida = 3€ por dia útil.

Em 22 dias:

66€ por mês

Isto não significa que devas eliminar os 66€.

Podes simplesmente decidir:

“Neste mês tenho 40€ para cafés e pequenos extras.”

Continuas a aproveitar essas despesas, mas estabeleces um limite.

Poupança neste exemplo:

26€


12. Analisa aquilo que pagas ao banco

Consulta o extrato bancário e procura:

  • comissão de manutenção;
  • custos do cartão;
  • transferências;
  • anuidades;
  • outros encargos.

O Banco de Portugal tem um Comparador de Comissões que permite comparar comissões máximas cobradas pelas instituições em diversos serviços bancários, incluindo manutenção de conta e cartões.

Também vale a pena perceber se cumpres os requisitos para uma conta de serviços mínimos bancários.

Em 2026, o Banco de Portugal indica que as instituições não podem cobrar pelo conjunto destes serviços mais do que 1% do IAS por ano, equivalente a 5,37€ em 2026. Existem, naturalmente, condições legais para ter acesso a este tipo de conta.

Não significa que devas necessariamente mudar.

Significa que deves saber:

quanto te custa a tua conta bancária por ano?

Se não sabes, vale a pena descobrir.


13. Reduz as encomendas de comida sem as eliminar

Outra despesa que cresce rapidamente é a comida entregue em casa.

Imagina quatro encomendas mensais de 18€:

4 × 18€ = 72€

Se reduzires para duas:

2 × 18€ = 36€

Neste exemplo, libertarias:

36€ por mês

Não precisas de eliminar completamente as encomendas.

Podes decidir previamente:

“Este mês posso encomendar duas vezes.”

Transformas assim uma compra impulsiva numa despesa planeada.


14. Aplica a regra das 24 horas às compras por impulso

Encontraste uma peça de roupa por 35€?

Uns auscultadores por 60€?

Uma decoração para casa por 25€?

Não precisas de dizer imediatamente que não.

Diz:

“Amanhã decido.”

Coloca o produto nos favoritos e espera 24 horas.

Para compras mais caras, espera 48 ou 72 horas.

Se ainda quiseres realmente o produto, compras.

Mas vais descobrir que algumas vontades desaparecem rapidamente.

Evitar apenas uma compra impulsiva de 30€ por mês já representa:

360€ ao longo de um ano.


15. Guarda parte dos rendimentos extraordinários

Há meses em que entra dinheiro adicional:

  • subsídio de férias;
  • subsídio de Natal;
  • prémios;
  • horas extra;
  • reembolso de IRS;
  • vendas de coisas que já não utilizas;
  • pequenos trabalhos adicionais.

Um erro comum é aumentar imediatamente os gastos porque entrou mais dinheiro.

Uma estratégia mais equilibrada pode ser:

Regra 50/50

Recebeste 300€ extraordinários?

  • 150€ para poupança
  • 150€ para gastar ou utilizar noutro objetivo

Não tens de aplicar exatamente esta percentagem.

Pode ser 20%, 30%, 50% ou 70%.

O importante é decidir antes de começares a gastar.


Afinal, de onde podem sair os 100€?

Vamos construir uma situação hipotética.

MudançaPoupança mensal estimada
Cancelar uma subscrição10€
Rever telecomunicações10€
Melhorar contrato/consumo de energia7€
Reduzir desperdício no supermercado20€
Levar almoço algumas vezes20€
Reduzir cafés e snacks10€
Menos encomendas de comida13€
Evitar uma compra por impulso10€
Total100€

Importante: estes são valores meramente ilustrativos.

Não significam que vais conseguir poupar exatamente estes montantes.

Uma pessoa poderá poupar 30€ no supermercado e nada na eletricidade.

Outra poderá reduzir 20€ nas telecomunicações, mas já ter um orçamento alimentar muito apertado.

O que interessa é encontrares a tua combinação.


O método dos 25€

Se 100€ te parecem demasiado, divide o problema em quatro.

Objetivo 1: encontrar 25€

Cancela uma subscrição e reduz duas ou três pequenas despesas.

Objetivo 2: encontrar mais 25€

Revê supermercado e refeições fora.

Objetivo 3: encontrar mais 25€

Analisa telecomunicações, energia e banco.

Objetivo 4: encontrar os últimos 25€

Trabalha compras impulsivas, encomendas e outros gastos variáveis.

De repente, já não estás a tentar descobrir 100€.

Estás a resolver quatro pequenos problemas de 25€.


E se eu não conseguir poupar 100€ por mês?

Então não poupes 100€.

Esta talvez seja a parte mais importante deste artigo.

Não existe nenhum valor mágico que determine se és ou não “bom” com dinheiro.

Se consegues poupar:

25€ por mês = 300€ por ano

40€ por mês = 480€ por ano

50€ por mês = 600€ por ano

Isso continua a ser progresso.

É preferível poupar 40€ de forma consistente durante anos do que estabelecer uma meta de 150€, sentir que falhas todos os meses e desistir.


Há um momento em que deixar de cortar despesas faz sentido

Nem todos os problemas financeiros se resolvem com poupança.

Se já:

  • tens uma habitação económica para a tua situação;
  • controlas o supermercado;
  • não tens subscrições desnecessárias;
  • tens telecomunicações adequadas;
  • tens poucas despesas de lazer;
  • não compras por impulso;

e mesmo assim o orçamento fica sempre no limite, talvez o problema já não esteja na despesa.

Pode estar no rendimento.

Nessa situação, cortar continuamente pode reduzir significativamente a qualidade de vida sem resolver o problema estrutural.

A estratégia passa então a ter duas partes:

1. Proteger aquilo que já ganhas.

2. Procurar aumentar o rendimento.

É por isso que criar uma segunda fonte de rendimento pode ser tão importante como aprender a poupar.


O que fazer aos primeiros 100€ poupados?

Se ainda não tens qualquer dinheiro de lado, pode fazer sentido começar por criar uma pequena reserva para imprevistos.

Um eletrodoméstico avariado, uma reparação no carro ou uma despesa de saúde inesperada pode transformar-se num problema muito maior quando não existe qualquer margem financeira.

Depois dessa primeira reserva, podes começar a trabalhar num fundo de emergência adequado à tua situação.

Só posteriormente fará sentido analisar outros objetivos, como:

  • amortizar determinadas dívidas;
  • preparar uma entrada para uma casa;
  • financiar formação;
  • criar poupança para filhos;
  • preparar despesas futuras;
  • investir a longo prazo.

Não precisas de começar a investir no momento em que juntas os primeiros 100€.

Primeiro, cria estabilidade.


Desafio: encontra hoje os teus primeiros 25€

Abre agora a aplicação do banco.

Consulta os últimos três meses.

Escolhe apenas uma destas tarefas:

  1. cancelar uma subscrição;
  2. rever o pacote de telecomunicações;
  3. simular a eletricidade;
  4. verificar as comissões bancárias;
  5. calcular quanto gastaste em comida entregue;
  6. calcular cafés e snacks;
  7. rever o supermercado.

Não precisas de mudar 15 coisas hoje.

Procura apenas os primeiros 25€.

Depois procuramos os seguintes.

É assim que os 100€ deixam de parecer impossíveis.


Perguntas frequentes

Quanto tenho de poupar por dia para chegar aos 100€ por mês?

Em termos médios, estamos a falar de pouco mais de 3€ por dia. No entanto, é normalmente mais eficaz reduzir algumas despesas mensais relevantes do que tentar controlar obsessivamente cada euro gasto diariamente.

É possível poupar 100€ por mês com um salário baixo?

Depende das despesas fixas, sobretudo habitação, transportes e composição do agregado familiar. Para algumas pessoas será perfeitamente possível; para outras, 100€ pode ser uma meta pouco realista.

O valor certo é aquele que consegues manter.

Devo poupar no início ou no final do mês?

Se tiveres margem financeira, transferir a poupança logo depois de receber pode ajudar a evitar que o dinheiro seja absorvido por outras despesas.

Começa com um valor prudente e ajusta depois.

Vale a pena comparar fornecedores de eletricidade?

Sim, pelo menos vale a pena fazer a comparação. A ERSE disponibiliza um simulador oficial que reúne as ofertas comerciais aplicáveis aos consumidores abrangidos pela ferramenta.

Como descubro se pago demasiado ao banco?

Consulta o preçário e os movimentos da conta e compara as comissões através do Comparador de Comissões do Portal do Cliente Bancário do Banco de Portugal.

Tenho de deixar de jantar fora ou beber café para poupar?

Não.

Uma estratégia financeira sustentável deve permitir algum espaço para lazer e prazer.

Antes de cortares essas despesas, elimina primeiro aquilo que pagas e já não utilizas.

Poupar 50€ por mês é pouco?

Não.

50€ por mês representam 600€ num ano.

O hábito e a consistência são mais importantes do que tentar atingir um valor irrealista.


Conclusão

Poupar 100€ por mês não significa necessariamente abdicar de tudo aquilo de que gostas.

Na maioria dos casos, o primeiro objetivo deve ser descobrir onde existe dinheiro a ser gasto sem trazer verdadeiro valor.

Pode estar:

  • numa subscrição esquecida;
  • num contrato que nunca comparaste;
  • no desperdício alimentar;
  • numa comissão bancária;
  • em refeições compradas por falta de planeamento;
  • numa compra que fizeste por impulso.

10€ aqui.

15€ ali.

20€ noutro lugar.

Quando juntas todas essas pequenas decisões, os 100€ começam a aparecer.

E mesmo que consigas apenas 30€, 50€ ou 70€, já estás numa situação melhor do que antes.

Poupar não é viver com menos por obrigação. É conseguir usar melhor o dinheiro que já tens.