Chega o salário. Pagas a casa, as contas, vais ao supermercado, abasteces o carro, fazes algumas compras e, quando reparas, já não sabes exatamente para onde foi o dinheiro.

E ainda faltam duas semanas para receber novamente.

Se isto acontece contigo, o problema pode não ser simplesmente “gastar demasiado”. Muitas vezes, falta apenas uma coisa: um orçamento mensal simples que consigas realmente cumprir.

Não precisas de uma folha de Excel complicada nem de registar cada café que bebes.

Um bom orçamento deve responder a três perguntas:

Quanto dinheiro entra?
Quanto dinheiro tem obrigatoriamente de sair?
Quanto posso gastar e poupar sem chegar ao final do mês em dificuldades?

Neste guia vamos construir um orçamento do zero e usar como exemplo um rendimento líquido de 1.200€ por mês.


O que é um orçamento mensal?

Um orçamento mensal é simplesmente um plano para o dinheiro que esperas receber e gastar durante o mês.

Imagina que recebes 1.200€.

Sem orçamento, podes pensar:

“Tenho 1.200€ disponíveis.”

Na realidade, provavelmente não tens.

Parte desse dinheiro já está destinada a:

  • habitação;
  • eletricidade;
  • água;
  • telecomunicações;
  • alimentação;
  • transportes;
  • seguros;
  • créditos;
  • outras despesas obrigatórias.

O orçamento permite perceber quanto dos 1.200€ está realmente disponível depois dessas responsabilidades.


Passo 1: Descobre quanto dinheiro entra

Começa pelo rendimento líquido mensal.

Ou seja, o dinheiro que efetivamente entra na tua conta.

Por exemplo:

Salário líquido: 1.200€

Se tiveres rendimentos adicionais relativamente regulares, podes acrescentá-los.

Mas há uma regra importante:

Não construas o orçamento com dinheiro que não tens a certeza de receber.

Horas extraordinárias, prémios ou rendimentos ocasionais podem desaparecer.

Se conseguires viver apenas com o rendimento previsível, o dinheiro adicional torna-se uma oportunidade para poupar ou atingir objetivos mais rapidamente.


Passo 2: Lista as despesas fixas

Agora aponta as despesas que sabes que vais ter.

Exemplo:

DespesaValor
Habitação350€
Eletricidade + água70€
Internet/telemóvel40€
Transportes100€
Seguros40€
Outras despesas fixas50€
Total650€

Dos nossos 1.200€, já comprometemos:

650€

Restam:

550€

Mas ainda não terminámos.


Passo 3: Calcula as despesas variáveis

Estas despesas mudam de mês para mês.

Por exemplo:

Supermercado
Combustível
Refeições fora
Roupa
Lazer
Compras ocasionais

Vamos imaginar:

DespesaOrçamento
Supermercado180€
Refeições/cafés50€
Lazer50€
Compras pessoais40€
Total320€

Tínhamos 550€ disponíveis.

Retirando 320€:

550€ − 320€ = 230€

Agora começamos finalmente a perceber quanto dinheiro existe para poupança e objetivos.


Passo 4: Define a poupança antes de começares a gastar

Aqui está uma mudança simples que pode fazer uma enorme diferença.

Muitas pessoas fazem isto:

Recebo → gasto → pago contas → vejo se sobra alguma coisa.

O problema é que frequentemente não sobra.

Experimenta inverter:

Recebo → separo a poupança → pago as despesas → gasto o restante.

É o princípio conhecido como “pagar primeiro a ti próprio”.

No nosso exemplo, podemos definir:

Poupança mensal: 150€

Assim:

Rendimento: 1.200€

Despesas fixas: 650€

Despesas variáveis: 320€

Poupança: 150€

Margem restante:

80€

E essa margem é importante.


Não construas um orçamento demasiado apertado

Este é um dos erros mais comuns.

Imagina um orçamento em que:

Rendimento: 1.200€

Despesas + poupança: 1.200€

Parece perfeito.

Até aparecer:

uma consulta;

uma prenda de aniversário;

uma reparação;

um medicamento;

uma deslocação inesperada;

ou simplesmente uma conta um pouco mais elevada.

O orçamento rebenta imediatamente.

Por isso, gosto de deixar uma pequena margem para imprevistos.

No nosso exemplo são 80€.

Se não forem utilizados, podem passar para a poupança.


O orçamento completo dos 1.200€

Ficamos então com:

CategoriaValor% aproximada
Despesas fixas650€54%
Despesas variáveis320€27%
Poupança150€12,5%
Margem80€6,5%
Total1.200€100%

Este orçamento não é uma receita universal.

É apenas um exemplo.

Uma pessoa pode pagar 600€ de renda enquanto outra vive numa casa já paga. Portanto, copiar percentagens cegamente raramente funciona.

O objetivo é construir o teu orçamento, não o orçamento perfeito da Internet.


E a regra 50/30/20?

Provavelmente já ouviste falar dela.

A ideia é dividir aproximadamente o rendimento desta forma:

50% para necessidades

30% para desejos

20% para poupança

Com 1.200€, isso corresponderia a:

600€ necessidades

360€ desejos

240€ poupança

É uma excelente referência.

Mas pode ser completamente irrealista para algumas pessoas.

Se só a renda consumir 600€, dificilmente todas as restantes necessidades caberão nos outros 0€ dessa categoria.

Por isso, a regra 50/30/20 deve funcionar como orientação, não como obrigação.


Quanto devo poupar?

No artigo anterior vimos precisamente esta questão.

Não existe uma percentagem obrigatória.

Se conseguires poupar:

5%, começa aí.

Se conseguires 10%, ótimo.

Se conseguires 20%, melhor ainda.

O importante é conseguir repetir o comportamento mês após mês.

No exemplo dos 1.200€, estamos a guardar:

150€ por mês.

Isto corresponde a:

1.800€ por ano.

Em três anos:

5.400€

Sem sequer contar possíveis juros ou rendimentos.


Cria primeiro um fundo de emergência

Antes de pensar em investimentos mais complexos, pode fazer sentido criar uma reserva financeira.

O fundo de emergência existe para acontecimentos como:

  • desemprego;
  • avarias;
  • despesas médicas inesperadas;
  • reparações;
  • despesas familiares urgentes.

Se as tuas despesas essenciais forem, por exemplo, 800€ mensais, três meses correspondem a:

2.400€

Se estiveres a poupar 150€ por mês, não precisas de olhar imediatamente para os 2.400€.

Começa por:

500€

Depois:

1.000€

Depois:

1 mês de despesas

E continua progressivamente.


Não te esqueças das despesas anuais

Este é um dos maiores assassinos de orçamentos.

Existem despesas que não aparecem todos os meses, mas sabemos perfeitamente que vão chegar.

Por exemplo:

Seguro automóvel
IUC
Revisão do carro
Natal
Férias
Propinas
Material escolar
Seguros anuais

Imagina que tens uma despesa anual de 240€.

Em vez de esperar pelo mês em que tens de pagar 240€, divide:

240€ ÷ 12 = 20€

Guarda 20€ todos os meses.

Quando chegar a conta, o dinheiro já está preparado.


Cria “envelopes” para o dinheiro

Não precisam de ser envelopes físicos.

Podes criar categorias mentais, numa folha de cálculo ou através de contas/subcontas bancárias.

Por exemplo:

Conta principal

Salário e pagamentos.

Poupança

Dinheiro que não queres gastar.

Despesas anuais

Seguro, carro, propinas, Natal, etc.

Fundo de emergência

Apenas para verdadeiros imprevistos.

Quando todo o dinheiro está misturado na mesma conta, é muito fácil olhar para um saldo de 1.000€ e pensar:

“Tenho 1.000€.”

Quando, na realidade, talvez 700€ já tenham destino.


Faz uma revisão semanal de cinco minutos

Não precisas de controlar as finanças diariamente.

Escolhe um dia da semana.

Por exemplo, domingo.

Abre a aplicação do banco e verifica:

Quanto gastei?

Quanto resta para supermercado?

Há alguma conta a chegar?

Estou dentro do orçamento?

Cinco minutos podem ser suficientes.

O objetivo não é controlar cada cêntimo.

É evitar descobrir no dia 25 aquilo que poderias ter corrigido no dia 10.


O orçamento falhou? Não abandones

Outro erro comum:

Planeaste gastar 180€ no supermercado.

Gastaste 215€.

Então pensas:

“O orçamento não funciona.”

Não.

O orçamento acabou de te dar informação.

Talvez 180€ fosse simplesmente pouco.

No mês seguinte podes definir:

200€

e retirar 20€ de outra categoria menos importante.

Um orçamento deve ser ajustado à realidade.


Um orçamento não serve para deixar de viver

Poupar não significa eliminar tudo aquilo de que gostas.

Um orçamento demasiado restritivo tende a falhar.

Se gostas de jantar fora uma vez por mês, inclui isso.

Se queres viajar, cria uma categoria para férias.

Se queres comprar alguma coisa, transforma-a num objetivo.

A diferença está em decidir antecipadamente onde queres gastar, em vez de descobrir posteriormente onde gastaste.


Como começar hoje

Não compliques.

Abre uma folha de papel, uma nota no telemóvel ou uma folha de cálculo.

Escreve:

RENDIMENTO

Salário: ___ €

DESPESAS FIXAS

Habitação: ___ €
Contas: ___ €
Transportes: ___ €
Seguros: ___ €
Outras: ___ €

DESPESAS VARIÁVEIS

Supermercado: ___ €
Lazer: ___ €
Refeições: ___ €
Compras: ___ €

POUPANÇA

___ €

Depois calcula:

Rendimento − despesas − poupança = margem mensal

Se o resultado for negativo, não significa que falhaste.

Significa que acabaste de descobrir que alguma coisa precisa de ser ajustada.

E descobrir isso é precisamente uma das funções de um orçamento.


Conclusão

Um orçamento mensal não precisa de ser perfeito.

Precisa de mostrar claramente três coisas:

quanto ganhas;

quanto gastas;

e quanto consegues guardar.

Começa com números reais, não com aquilo que gostarias que fossem as tuas despesas.

Cria uma pequena margem.

Prepara antecipadamente as despesas anuais.

Automatiza a poupança quando possível.

E revê o orçamento regularmente.

Porque controlar o dinheiro não significa passar a vida a pensar nele.

Na realidade, um bom orçamento serve precisamente para o contrário:

saber que as contas estão organizadas e poder utilizar o restante dinheiro com muito menos preocupação.


Perguntas frequentes

Como fazer um orçamento mensal simples?
Começa pelo rendimento líquido, subtrai as despesas fixas, estima as despesas variáveis e define antecipadamente um valor para poupança.

A regra 50/30/20 é obrigatória?
Não. É apenas uma referência. O custo da habitação, rendimento e situação familiar podem tornar essas percentagens pouco realistas.

Quanto devo poupar com um salário de 1.200€?
Depende das despesas. No exemplo deste artigo utilizámos 150€, correspondentes a 12,5% do rendimento.

Devo incluir despesas anuais no orçamento mensal?
Sim. Divide o valor anual por 12 e reserva essa quantia mensalmente.

É preciso registar todas as compras?
Não obrigatoriamente. O essencial é conhecer as principais categorias de despesas e verificar regularmente se estás dentro dos limites definidos.